Como escrever prompts em português.
O que falta a um prompt quase nunca é comprimento — é contexto. Um modelo de IA não sabe quem tu és, para quem escreves nem como escreves, por isso responde como a média da internet. Escreve o contexto uma vez, guarda-o num ficheiro, e o pedido passa a caber em quatro linhas: o que queres, quem és, o que conta como bom, e duas versões para escolher.
Quero o pacote com os exemplos →Prompts maiores não resolvem o problema. Repetem-no.
Andam a circular pacotes de prompts com quatrocentas linhas: dezoito secções, cinquenta sub-perguntas, quinze campos entre parênteses para preencheres antes de carregares em enviar. São bem feitos. E dão resultados mornos.
Não por serem maus — por serem a resposta errada ao problema. O modelo responde a tudo o que lhe perguntaste e a nada do que precisavas, porque continua sem saber quem tu és. E há um problema prático por cima do conceptual: à terceira vez que preencheres os mesmos quinze campos, deixas de preencher.
Contexto que se reutiliza, não prompts que se reescrevem. A separação é toda a ideia. O contexto — quem és, para quem escreves, como escreves — é igual na segunda e na quarta-feira. Escreve-se uma vez. O pedido é a única parte que muda, e essa é curta.
Os quatro passos, e o que cada um resolve.
| Passo | O que escreves | O que resolve |
|---|---|---|
| 1 · Quem sou | Profissão, tipo de clientes, quem vai ler, o que já tentaste | Tira o texto do registo genérico e do óbvio que o leitor já sabe |
| 2 · Objectivo | O que conta como bom, e o que não pode acontecer | Dá-te um critério para avaliar a resposta em vez de a achares simpática |
| 3 · Norma | Formato, extensão, tom, «em português de Portugal», e 3 a 5 linhas escritas por ti | É o passo que muda tudo — e o único que quase ninguém faz |
| 4 · Duas versões | «Dá-me duas versões e diz-me em que é que divergem» | Com uma versão avalias contra nada; com duas, comparas |
Cola três linhas tuas. Vale mais do que trezentas de instruções.
Sem uma amostra da tua escrita, o modelo escreve como a média da internet — e a média da internet escreve mal. Aquele português morno e simpático que soa a folheto vem daí, não de teres pedido pouco.
A amostra tem de ser tua e tem de ser real. Não um texto que admiras: um email que escreveste com pressa serve melhor do que o teu melhor texto, porque é mais parecido contigo. Três a cinco linhas chegam.
E escreve a lista do que nunca dizes — «solução à medida», «sinergia», «não hesite em contactar», pontos de exclamação. É a única secção que corrige o defeito por defeito, e faz mais trabalho do que as outras todas juntas.
Pede a língua de forma explícita, ou recebes pt-BR.
Os modelos actuais — ChatGPT, Claude, Gemini — escrevem português europeu aceitável, mas por omissão tendem para o português do Brasil, porque é o que abunda nos dados de treino. A instrução «em português de Portugal» na secção da Norma resolve a maior parte.
O que escapa quase sempre são as mesmas palavras: «arquivo» em vez de ficheiro, «tela» em vez de ecrã, «usuário» em vez de utilizador, «gerenciar» em vez de gerir, «estou fazendo» em vez de estou a fazer. Vale a pena tê-las na lista do que nunca dizes — assim a correcção é automática e não depende de a apanhares à leitura.
O que me perguntam mais.
Qual é a diferença entre um prompt e o contexto? O prompt é o pedido — o que queres agora. O contexto é o pano de fundo — quem tu és, para quem escreves e como escreves. O pedido muda a cada tarefa; o contexto é quase sempre o mesmo. Escrever o contexto uma vez e reutilizá-lo é o que faz a diferença entre respostas genéricas e respostas que podes usar.
Prompts mais longos dão melhores respostas? Não necessariamente. Andam a circular prompts com quatrocentas linhas e quinze campos para preencher. O comprimento não resolve o problema de fundo: o modelo continua sem saber quem tu és. E um formulário de quinze campos deixa de ser preenchido à terceira utilização. O que resolve é contexto reutilizável mais um pedido curto.
Como faço a IA escrever como eu? Cola três a cinco linhas escritas por ti — um email antigo serve melhor do que o teu melhor texto, porque é mais parecido contigo. Instruções sobre tom ("escreve de forma directa") funcionam muito pior do que uma amostra real da tua escrita. É o passo que quase ninguém faz e o que mais muda o resultado.
Como evito que a IA invente coisas? Diz-lhe explicitamente o que fazer quando não souber. Uma instrução do género "não inventes responsáveis nem datas: se não estiver nas notas, escreve [POR DEFINIR]" muda o comportamento. Sem isso, um resumo de reunião sai com nomes e prazos que ninguém combinou, escritos com toda a confiança.
Devo escrever os prompts em português ou em inglês? Em português, se o resultado for para ler em português. Os modelos actuais escrevem português de Portugal aceitável desde que lho peças de forma explícita — "em português de Portugal" — porque por omissão tendem para o português do Brasil. Pedir em inglês e traduzir depois acrescenta um passo e perde o teu tom.
Porque é que devo pedir duas versões em vez de uma? Com uma versão, avalias contra nada. Com duas, comparas — e a comparação mostra-te o que realmente querias, que muitas vezes não é nenhuma das duas. Acrescenta a pergunta "em que é que divergem" e a própria explicação faz metade do trabalho de decisão.
Os quatro passos existem. Os exemplos é que demoram a escrever.
Esta página dá-te o método. O pacote dá-te o trabalho já feito: o ficheiro de contexto pronto a preencher e seis pedidos completos, do género que eu faria.
- O ficheiro de contexto — escreves uma vez, usas sempre.
- Seis exemplos preenchidos até ao fim: um email difícil, uma proposta, um post, um resumo de reunião, uma resposta a uma reclamação e material para uma aula.
- O que reparar em cada resposta — o critério concreto que diz se aquilo serve ou se voltas atrás.
- Os três erros que estragam o resultado.
Quem escreve
Ana Sousa, 14+ anos em QA e desenvolvimento de software. ISTQB, incluindo Security e Test Manager.
O reflexo de quem testa é procurar onde as coisas partem. Um formulário de quinze campos parte à terceira utilização.
Quero o pacote →Não resolve o que constróis.
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